Braçal

Há alguns dias tive um encontro de mentoria com T., uma estudante que quer empreender. Uma vírgula no meio da conversa de 2 horas ficou ressoando por dias na minha cabeça. Entre os detalhes da ideia inspiradora de negócio social que ela sonha em criar, ela me contou que havia recebido duas propostas de trabalho (afinal, é preciso pagar as contas). A que aceitou trata-se de apoio administrativo a um órgão acadêmico. Recusou a segunda – servir mesas num Café – com o argumento que seria um trabalho apenas “braçal”, ou seja, que pouco agregaria à sua vida.

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Há pouco mais de 2 meses, decidi tirar um período sabático. Entre um milhão de pensamentos que explodiram em um momento de crise existencial, me dei conta de que ao longo de meus 10 anos de vida profissional, sempre vivi uma mesma rotina de trabalho que se resumia a trabalho administrativo e intelectual na frente do computador e atividades de networking. Não tenho do que me arrepender. Todos eles tiveram propósito e sentido para mim e me proporcionaram muitos aprendizados. Mas, ao longo dos últimos meses, essa dinâmica começou a ficar vazia de sentido na minha vida. Por um lado, sentia-me no auge da minha capacidade criativa na idealização de projetos da empresa que estava ajudando a criar; por outro, limitada por nunca ter explorado outras formas de me expressar. Acima de tudo, estava perdida.

A vida inteira tive planos. Não inflexíveis, mas claros. Imaginei o que gostaria de realizar, e realizei. Pela primeira vez na vida, nos cerca de 12 meses anteriores ao momento de crise, eu não tinha um norte. Não tinha a menor ideia de para onde queria ir. Fazia 12 meses que me fazia a mesma pergunta e tentava respondê-la. Ao dar-lhe respostas, tentava definir meu foco. Mas a verdade é que nada parecia fazer real sentido por dentro, por mais que externamente tudo parecesse lindo. Foi quando me dei conta de que, para encontrar meu foco, precisava desfocar. Como nos processos de inovação em empresas em que trabalhava, era preciso divergir antes de convergir.

Foi o que chamei de período sabático. Para muitos, sem aprofundar na análise semântica, sabático implica colocar a mochila nas costas e viajar o mundo. Isto talvez até mereça outro post. Aqui vou limitar-me a dizer que, para mim, sabático trata-se de uma viagem para dentro de mim mesma, sem necessariamente sair da cidade ou do país.

Permitir-me, pela primeira vez na vida, experimentar coisas novas sem foco foi imediatamente libertador. À típica pergunta de eventos de networking “O que você faz?” comecei a responder que “no momento ando desfazendo” com grande leveza e um sorriso no rosto.

O único problema é que nunca guardei muito dinheiro e precisava pagar as contas. Mas quando a gente deixa a vida fluir, o universo ajuda, acredite. No mesmo fim de semana em que decidi tirar o sabático, meu caminho se cruzou com as pessoas lindas da Mística Pizza, uma pizzaria criada por meditadores, a uma quadra da minha casa, que havia aberto recentemente em São Paulo e procurava formar a equipe com pessoas que compartilhavam de uma filosofia de vida com base no amor, na humildade, na liberdade de ser. E assim a solução surgiu antes mesmo da grana ser de fato um problema: desde então, trabalho à noite na Mística e tenho tempo durante o dia para mim e para o que escolho fazer.

É aí que minha história se entrelaça com a da T.. Até há cerca de um ano e meio atrás, eu não teria nem cogitado trabalhar servindo mesas numa pizzaria. Depois de investir tanto na minha educação, e de meia dúzia de experiências profissionais interessantes, tinha grandes ambições. Acreditava que dirigir uma empresa de sucesso e relevância para o mundo era meu destino e seria minha grande realização na vida – além de ter (e educar) filhos. Mas o trabalho puramente intelectual e lógico esvaziou-se. Por mais edificante que fosse a missão do meu trabalho, não me fazia acordar bem disposta pela manhã. Na Mística Pizza redescobri a imensa alegria que sinto no ato de servir as pessoas. Descobri que minha missão ao trabalhar como garçonete não é servir comida ao corpo, e sim servir carinho – alimento à alma –de cada uma das pessoas que por lá passam. Cada uma com sua própria história, às vezes alegres e abertas, às vezes tristes e ranzinzas – não importa. Amor compartilhado se multiplica. Mesmo nos dias em que chego desanimada para trabalhar (afinal a vida é feita de altos e baixos), saio mais feliz do que entrei. O que há de “braçal”, pouco agregador, nisso?

Eu e minha sócia conversamos um bocado nos últimos meses sobre propósito de vida. Por sorte ela tem uma boa memória. No meu momento de crise ela me lembrou que eu havia dito, meses antes, que eu queria ajudar as pessoas a mudarem seus paradigmas. Lindo. De fato, me identifico com isso. Mas como diabos se faz isso? Como diabos mudo meus próprios paradigmas? Quais paradigmas quero deixar para trás e sobre quais novos paradigmas quero viver?

Sou muito grata à T. Sem perceber, ela me inspirou a fazer esta primeira reflexão sobre estes últimos meses transformadores da minha vida. Dou-me conta agora de que estou começando a mudar meus paradigmas. Estou começando a encontrar a minha forma de ser a mudança que quero ver no mundo – ensinamento de Gandhi no qual acredito muito. Não que isso signifique que vou passar o resto da minha vida servindo mesas num restaurante. Mas hoje me sinto mais feliz porque estou aprendendo através da minha própria experiência* que o desenvolvimento intelectual é apenas uma das formas de desenvolver a sabedoria. E sabedoria gera felicidade.

Que todos os seres sejam felizes.

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*Sidarta Gotama, o Buda, ensinava que há três tipos de sabedoria: suta-maya pañña –sabedoria recebido dos outros; cinta-maya pañña – sabedoria adquirida por meio de análise intelectual; e bhavana-maya pañña – sabedoria desenvolvida através da experiência pessoal direta. Das três, só a última pode purificar totalmente a mente. (Adaptado do livro “Meditação Vipassana – a arte de viver segundo S. N. Goenka”, por William Hart)

Cozinha da Mística Pizza São Paulo, onde sua pizza é feita com amor por uma equipe que é só amor e diversão. ♡
Cozinha da Mística Pizza São Paulo, onde sua pizza é feita com amor por uma equipe que é só amor e diversão. ♡